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“Passa passará, quem de trás ficará...” Alguém lembra dessa brincadeira? Se voltar o tempo na minha imaginação posso até ouvir meus amigos cantando comigo essa cantiga que nos entretinha por horas...
Pode até ser saudosismo e, um pouco talvez seja, mas não faz tanto tempo assim que brincávamos de “passa passará”, “mamãe quero doce” ou “sapata”, que era como nós chamávamos aquela brincadeira riscada no chão e jogada com pedra. Os dias pareciam sempre nos dever algumas horas para ficarmos mais tempo na rua ou nos pátios brincando de jogar bola. Mas, a propósito,como dizia a música do passa passará, quem ficou para trás? Olhando as crianças brincarem hoje com seus jogos eletrônicos e suas atenções tão voltadas pra tudo que acontece nas telas das televisões em suas casas, parece que muitas das brincadeiras de roda, das cantigas infantis e de uma certa leveza da infância ficaram pra trás. Se pensarmos em como era vivida a infância das crianças até mais ou menos final dos anos oitenta – anterior ao movimento de globalização da informação, alavancado pela invenção da Internet – vamos nos deparar com uma infinidade de brincadeiras passadas de pais para filhos, povoadas de imaginação, criatividade, embaladas por cantigas e histórias inventadas num mundo de faz-de-conta. Diferente daquele tempo, as crianças de hoje não estão tão envolvidas só com jogos e brincadeiras. É claro que somos nós mesmos enquanto sociedade que imprimimos nas nossas crianças características próprias do modo de funcionar da economia mundial, o capitalismo. Nossas crianças estão, assim como os adultos, preocupados em consumir. Por isso não pode ser qualquer brinquedo, qualquer roupa ou calçado: tem que ser o da moda. E chega ser mesmo difícil resistir a tantos apelos! Não é à toa que se vê por aí crianças que mais parecem mini-adultos! Fato é que o consumo acertou em cheio a infância, e nesse sentido não fica tão difícil entender o porquê dos abusos, seja na alimentação, seja nos medicamentos. Come-se para diminuir a angústia; tomam-se remédios para acalmar os medos, esconder as faltas e as falhas existentes nas relações familiares e sociais, e as crianças não deixam de reproduzir esse cenário angustiante. Está mais difícil ser criança hoje do que na época de nossos pais e avós. Isso porque, diferente daquele tempo, onde a infância era a melhor fase da vida porque não existiam responsabilidades nem preocupações, as crianças de hoje nascem “predestinadas” a serem bem-sucedidas. As crianças precisam superar seus pais, serem e terem o que eles mesmos não conseguiram. Nesse caminho de superação, de ser sempre o melhor, de aprender mais rápido e desempenhar várias atividades durante o dia para estar cada vez mais apto para o futuro como adulto, muitas crianças adoecem. E é nesse momento que a psicoterapia pode vir a ajudar. Ajudar a se perceber, a se compreender e a modificar o que está prejudicando o bem viver da criança que, por sua vez, irá apresentar problemas que estarão interligados com sua história de vida e com a forma de viver da sua família. Por esse motivo a participação dos pais no tratamento torna-se indispensável. Ao compreender os sintomas e ao respeitar as limitações infantis, ao contrário do que dizia a brincadeira citada no início, ninguém fica pra trás: nem a criança, nem sua infância. Carolina Schumacher Psicóloga da Clínica MedSpa. Formada pela Universidade Federal de Santa Maria, com especialização em Psicologia Clínica Infantil pelo Centro Universitário Franciscano também nessa cidade. |