Se pararmos para observar ao nosso redor, sem dificuldades vamos perceber que a sociedade em que vivemos hoje não é a mesma de nossos pais e avós. Não é novidade essa constatação que está inclusive nos discursos mais nostálgicos dos que dizem “no meu tempo não era assim.”Não são as mesmas ruas que outrora se enchiam de crianças reunidas para a brincadeira; não são as mesmas casas com suas rotinas de refeições conjuntas tão rigorosamente respeitadas; não são as mesmas lojas, nem as mesmas roupas, nem o mesmo dinheiro... Muita coisa mudou daquele tempo para os dias de hoje, e talvez as mudanças mais importantes estejam na forma como hoje nos relacionamos com os objetos e com as pessoas. Não se trata de saudosismo ao que já passou, nem tampouco de repúdio ao modo como se vive hoje; trata-se de uma reflexão sobre a forma como se vive na sociedade contemporânea – sem segurança, sem tempo para rotinas familiares, sem estabilidade profissional dentre outras – com as chamadas “patologias do vazio”, tão estudadas na atualidade.
           “Patologias do vazio” é o nome dado às doenças psíquicas que têm seus sintomas privilegiadamente no corpo – como é o caso das anorexias e bulimias – ou sintomas de vazio, de falta de sentido, de solidão extrema – como são os casos de algumas depressões, de transtornos de personalidade borderline e do transtorno do pânico. Não cabe aqui conceituar todas estas doenças psíquicas, mas o que todas têm em comum não é difícil imaginar: a sensação de estar sozinho e vazio.
Sabendo-se dessas doenças, das patologias do vazio, como relacioná-las com o modo de vida que temos hoje? Pode não ser tão fácil de perceber, mas a sociedade contemporânea é uma sociedade que dissemina o vazio e a solidão. Basta observar as inovações tecnológicas, por exemplo. As últimas novidades de celulares de hoje não sobreviverão até a próxima estação, já serão ultrapassados por modelos mais “completos” que acumularão mais funções e terão uma vida útil reduzida na mesma medida. O novo não se mantém por muito tempo, ou porque é superado por outro modelo “mais novo”, ou porque estraga (já que diferente do tempo dos nossos pais e avós, as coisas hoje não são feitas para durar). Da mesma maneira, ou com a mesma lógica, funcionam os relacionamentos. Como aponta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro “Amor líquido”, as relações amorosas da atualidade seguem o princípio da satisfação - como se prega no comércio em geral – onde para permanecer com alguém precisamos ter nossas necessidades satisfeitas plenamente. É preciso ter algum “lucro”, no sentido de ter vantagens de estar com aquela pessoa ao invés de estar sozinha. Dessa maneira os relacionamentos são pensados também na lógica dos produtos: “serve até que apareça outro ainda melhor”. O esvaziamento é constante, tanto dos produtos quanto das pessoas. Esvaziamento de sentido à medida que não se tem a permanência dos objetos ou das pessoas uma vez que podem ser trocadas sempre que apresentarem problemas ou falhas.
Os modos de viver da sociedade contemporânea não sustentam valores de estabilidade e permanência, tolerância e paciência, tão importantes para a produção de sentidos, para a compreensão da vida. As patologias do vazio precisam ser compreendidas nesse contexto social de impermanência e esvaziamento dos sujeitos onde a falta de sentido e o sentimento extremo de solidão são os sintomas mais produzidos.